Palavra do Frei › 08/08/2015

XIX Domingo do Tempo Comum – B

pan--z Alimentar-se do Cristo As leituras que fazemos do capítulo 6 de João costumam ser mal costuradas. Depois de ter falado, sem precisar melhor, sobre um pão misterioso que foi dado pelo Pai para a vida do mundo e de ouvir os que lhe pedem dar-lhes sempre deste pão (versículos 26 a 34), Jesus explica em dois discursos ser ele mesmo «este pão». Os dois discursos começam com as mesmas palavras: «Eu sou o pão da vida» (versículos 35 e 48), e terminam ambos com «a vida eterna» (versículos 47 e 58). No meio de cada um destes dois discursos (versículos 41 e 52), temos a revolta dos ouvintes. O primeiro discurso repete de diversas formas que comer este pão, identificado agora com o próprio Cristo, consiste em crer nele. Crer e comer se tornam sinônimos. Em linguagem corrente, podemos dizer que nos alimentamos deste ou daquele autor, que devoramos os seus livros ou, então, que não “manjamos” nada da sua obra. Assim como, para expressar uma recusa, podemos dizer: «deste pão não comerei». A palavra que ouvimos, recebida de outros, é um alimento para nós, porque nos constrói e nos faz existir. Tudo o que existe em nós é uma elaboração de tudo o que temos recebido. No 1º capítulo do Gênesis, ficamos sabendo que a Palavra de Deus é que nos faz ser. E, em Cristo, esta Palavra torna-se sensível, audível e visível para nós (1 João 1,4). Crer n’Ele é crer em nós mesmos, porque é n’Ele que se encontra a verdade do nosso ser. N’Ele reside a certeza da nossa incorruptibilidade. Por isso, “comer para viver” é crer e absorver quem o Pai nos enviou e para quem Ele nos atrai (versículo 44). O «pão do céu» Crer em Cristo, nutrir-se do Cristo não é somente uma adesão intelectual. Trata-se de fundar n’Ele a nossa vida, ou seja, fazer nossos os seus comportamentos ou, antes, a sua atitude fundamental, que comanda toda a sua vida, tudo o que Ele faz e o que diz. Atitude que pode resumir-se numa só frase: dar a vida. Só se preserva e se salva aquilo que se dá. A expressão «pão descido do céu» que à primeira vista nos deixa frios, significa que não contamos em nada para a sua produção, que esta aptidão para dar nos vem do próprio Deus. É um modo de expressar tudo o que o Pai é e tudo o que o Filho é. Este Jesus que está aí foi-nos dado e, ao dar-se a si mesmo, revela-nos «como Deus é». Os interlocutores de Jesus ficaram indignados; mas como pode este homem dizer que «desceu do céu», quando sabemos que vem desta terra mesmo? De fato, não conhecemos quem é o seu pai, a sua mãe…? Estas pessoas têm de aprender, e também nós, que vir da terra e descer do céu não são contraditórios. Em Gênesis 1, tudo o que a terra produz é fruto exatamente da Palavra que vem de Deus. Todas estas coisas «encarnam» o Verbo e o Cristo as recapitula, conduzindo-as à sua última verdade. Pois não é Ele a «luz do mundo»? A realização perfeita da luz que nos foi dada em Gênesis 1,3? Por isso o pão da terra anuncia e prepara o «pão do céu». De tudo isto é que nasce a vida, a nossa vida atual fazendo-se vida eterna, sob a condição de aceitarmos dá-la. Quem é Jesus? E eis-nos novamente diante da famosa questão da identidade. Vendo Jesus e tudo o que ele faz, somos levados a compreender e a crer não só que ele «vem» de Deus, mas que é a presença de Deus. A sua identidade profunda desqualifica infinitamente o que sabemos, ou acreditamos saber dele. Gerada a partir do «ver», da visão, a fé vai bem mais além do que se constata. Podemos até mesmo, no limite, «crer sem ver» (João 20,29). E este exatamente é, enfim, o regime sob o qual vivemos todos os que cremos «pela audição» a partir do testemunho dos apóstolos, transmitido de geração em geração. Não vamos imaginar que aderir à pessoa do Cristo, pôr-se a caminho com Ele, escolher ser como Ele exija um esforço esgotante da nossa parte. Não somos nós que temos de «fabricar» a nossa fé; «Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o atrair» (versículo 44). Apenas isto: temos o poder formidável de ceder a esta atração ou de recusá-la. Cabe a nós dar o «sim» nupcial que faz de nós um só com o Cristo; uma só carne. Não esperemos ser invadidos por um poderoso sentimento de crença: temos simplesmente de escolher crer, de imitar o «faça-se em mim segundo a tua Palavra» de Maria, no dia da Anunciação. Por um lado, a fé é aceitar o abandono à atração de Deus. Atração que nos conduz ao Cristo, humanidade de Deus e divindade do homem. E não podemos esquecer que Cristo, presente em cada um com quem nos encontramos, veio entregar-se em nossas mãos: «a mim o fizestes» (Mateus 25,40). Marcel Domergue

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